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 Jornal.st / Editorial Sexta Feira, 03.09.2010
Editorial

Logo após a abertura, com pompa e circunstância, do Fórum de Reconciliação Nacional, uma equipa parte em busca dos problemas com os quais se confronta a população são-tomense e das suas opiniões.

Um verdadeiro trabalho arqueológico para descobrir o que todos já conhecem! Mas é necessário distrair o povo!

Num país com cerca de 140 ou 170 mil habitantes, conhecer as suas verdadeiras dificuldades, preocupações e urgências não é um trabalho de pesquisa árduo. Seria credível, se estes arqueólogos, que se limitam a conhecer o país fechados no seu gueto da capital são-tomense, abrissem os olhos na realidade profunda do país e não chegassem aos locais com um aviso prévio de chegada.

Há um verdadeiro problema em São Tomé, segredos que todos partilham, fechados na máxima alegórica da definição de STP: «Somos Todos Primos»... E ninguém se atreve a acusar um «primo», sob o risco de ser condenado ao ostracismo da elite. Um género claro da «Ormetta São-Tomense», a Lei do Silêncio.

Assim, a «comissão» que vai constatar os problemas do país, pela voz do seu próprio povo, não poderá esquecer alguns pontos escaldantes que fazem a realidade negra do país.

Ninguém fala do tráfico de crianças e da venda de crianças das roças, uma pratica mantida e enclausurada no silêncio de alguns euros ou dólares, que escondem redes de compra de menores por europeus pouco escrupulosos que trabalham juntamente com alguns são-tomenses, envolvendo países que são parceiros directos de São Tomé.

A miséria dos «estrangeiros» que residem em São Tomé, principalmente cabo- verdianos, quando a Constituição são-tomense declara na Lei n/o 6/90, Lei da Nacionalidade sobre a «Aquisição por Razões Históricas» (artigo 8/o), que «são considerados são-tomenses todos os estrangeiros residentes em São Tomé e Príncipe à data da independência». No entanto, vários cidadãos que chegaram a São Tomé nos anos 50 e 60, ainda são considerados como estrangeiros. O velho argumento persiste em afirmar que no momento eles não quiseram a nacionalidade. A realidade demonstra que nunca foram informados dessa possibilidade e o presente insiste em não corrigir o erro. A devastação da fauna e do ecossistema são-tomense. Certamente é bonito mostrar ao turista ocidental que São Tomé defende a sua fauna e a sua flora. A realidade é outra!

Os clientelismos e os preferencialismos segundo as filiações partidárias acabam por afectar um funcionamento correcto de determinadas estruturas do Estado.

Mas a «Ormetta são-tomense» atinge principalmente a corrupção, que é outro dos temas que corre sérios riscos de não ser abordado, juntamente com a saúde, principalmente nas dependências de roças atiradas para o interior do país; os terrenos baldios outrora explorados; a corrupção nas «políticas» da cooperação; as questões sanitárias da população; e acima de tudo, como é que se consegue viver com 100 mil dobras de reforma que é ocasionalmente dado aos mais idosos? Um montante muito inferior dá conta de um jantar banal da elite são-tomense...

Não é necessário ir muito longe para identificar os problemas, eles estão na rua, logo à saída do Palácio do Povo, às portas do Palácio do Governo, da polícia, colado ao Palácio dos Congressos... Eles estão patentes no dia-a- dia, nos percursos das residências oficiais, e privadas, até ao aeroporto, e em torno deste mesmo.

Vamos aguardar as conclusões... e ver «identificados» os problemas do país real, escritos em actas, comentados, temas de discursos, resoluções, leis e afins... e a resolução mais uma vez adiada. E a população poderá continuar a gerir o dia a dia da miséria com o sentimento que foi ouvido, aguardando calmamente por uma campanha eleitoral que lhe dará uma nova oportunidade de ouvir, falar e calar!

A «história é cíclica» garantia um filósofo!

Rui Neumann