Logo após a abertura, com pompa e circunstância, do Fórum
de Reconciliação Nacional, uma equipa parte em busca dos
problemas com os quais se confronta a população são-tomense
e das suas opiniões.
Um verdadeiro trabalho arqueológico para descobrir o que todos
já conhecem! Mas é necessário distrair o povo!
Num país com cerca de 140 ou 170 mil habitantes, conhecer as
suas verdadeiras dificuldades, preocupações e urgências
não é um trabalho de pesquisa árduo. Seria credível,
se estes arqueólogos, que se limitam a conhecer o país
fechados no seu gueto da capital são-tomense, abrissem os olhos
na realidade profunda do país e não chegassem aos locais
com um aviso prévio de chegada.
Há um verdadeiro problema em São Tomé, segredos
que todos partilham, fechados na máxima alegórica da definição
de STP: «Somos Todos Primos»... E ninguém se atreve
a acusar um «primo», sob o risco de ser condenado ao ostracismo
da elite. Um género claro da «Ormetta São-Tomense»,
a Lei do Silêncio.
Assim, a «comissão» que vai constatar os problemas
do país, pela voz do seu próprio povo, não poderá
esquecer alguns pontos escaldantes que fazem a realidade negra do país.
Ninguém fala do tráfico de crianças e da venda
de crianças das roças, uma pratica mantida e enclausurada
no silêncio de alguns euros ou dólares, que escondem redes
de compra de menores por europeus pouco escrupulosos que trabalham juntamente
com alguns são-tomenses, envolvendo países que são
parceiros directos de São Tomé.
A miséria dos «estrangeiros» que residem em São
Tomé, principalmente cabo- verdianos, quando a Constituição
são-tomense declara na Lei n/o 6/90, Lei da Nacionalidade sobre
a «Aquisição por Razões Históricas»
(artigo 8/o), que «são considerados são-tomenses
todos os estrangeiros residentes em São Tomé e Príncipe
à data da independência». No entanto, vários
cidadãos que chegaram a São Tomé nos anos 50 e
60, ainda são considerados como estrangeiros. O velho argumento
persiste em afirmar que no momento eles não quiseram a nacionalidade.
A realidade demonstra que nunca foram informados dessa possibilidade
e o presente insiste em não corrigir o erro. A devastação
da fauna e do ecossistema são-tomense. Certamente é bonito
mostrar ao turista ocidental que São Tomé defende a sua
fauna e a sua flora. A realidade é outra!
Os clientelismos e os preferencialismos segundo as filiações
partidárias acabam por afectar um funcionamento correcto de determinadas
estruturas do Estado.
Mas a «Ormetta são-tomense» atinge principalmente
a corrupção, que é outro dos temas que corre sérios
riscos de não ser abordado, juntamente com a saúde, principalmente
nas dependências de roças atiradas para o interior do país;
os terrenos baldios outrora explorados; a corrupção nas
«políticas» da cooperação; as questões
sanitárias da população; e acima de tudo, como
é que se consegue viver com 100 mil dobras de reforma que é
ocasionalmente dado aos mais idosos? Um montante muito inferior dá
conta de um jantar banal da elite são-tomense...
Não é necessário ir muito longe para identificar
os problemas, eles estão na rua, logo à saída do
Palácio do Povo, às portas do Palácio do Governo,
da polícia, colado ao Palácio dos Congressos... Eles estão
patentes no dia-a- dia, nos percursos das residências oficiais,
e privadas, até ao aeroporto, e em torno deste mesmo.
Vamos aguardar as conclusões... e ver «identificados»
os problemas do país real, escritos em actas, comentados, temas
de discursos, resoluções, leis e afins... e a resolução
mais uma vez adiada. E a população poderá continuar
a gerir o dia a dia da miséria com o sentimento que foi ouvido,
aguardando calmamente por uma campanha eleitoral que lhe dará
uma nova oportunidade de ouvir, falar e calar!
A «história é cíclica» garantia um
filósofo!